Caminhando e Cantando

Quinta-feira, Outubro 14, 2004





Ajudem a Suipa a continuar a salvar os bichos
Ela está muito precisada de ajuda







A PRECE DE UM CÃO

Trate-me com carinho, querido amigo,
porque não há nada no mundo mais agradecido do que o meu coração.

Não machuque o meu espírito com a vara porque,
embora eu esteja lambendo as suas mãos entre uma e outra pancada,
a sua paciência e compreensão vão me ensinar
mais rápido aquilo que você quer que eu aprenda.

Nem sempre estou certo,
mas estou sempre querendo perdoar
e ser perdoado.

Fale sempre comigo,
pois a sua voz é a música mais doce,
como você já deve ter percebido,
pelo abanar fogoso de minha cauda quando ouço seus passos.

Por favor, leve-me para dentro
quando estiver frio ou chovendo pois sou um animal doméstico,
não mais acostumado ao frio e a chuva.

Peço-lhe nada mais que o privilégio
de sentar-me a seus pés, ao lado do coração.

Mantenha o meu pote cheio de água fresca,
pois não posso falar quando tenho sede.

Dê-me comida fresca, para que eu fique bem
e possa brincar e atender aos seus comandos,
para andar a seu lado e estar apto a lhe proteger com a minha vida,
caso você esteja correndo perigo.

Não posso falar quando preciso de cuidados médicos
ou quando devo tomar injeções;
olhe para mim e observe se estou indiferente,
fugindo da comida, e leve-me ao nosso amigo,
o Veterinário, para uma consulta periódica.

E, meu amigo,
quando eu estiver velho
e não mais gozando de boa saúde,
vendo e ouvindo mal,
não faça nenhum esforço heróico para me manter vivo.
Eu não vou estar me divertindo.

Por favor,
cuide para que minha vida seja suavemente tirada
. Devo deixar esta terra
sabendo que meu destino
sempre esteve seguro em suas mãos.

Tudo o que lhe peço
é que fique comigo até o fim,
segure-me firme
e fale comigo até que meus ouvidos
não mais o ouçam
e os meus olhos não mais o vejam.




.


Testamento de um Cão

(Frank Reinshstein)


Minhas posses materiais são poucas
e eu deixo tudo para você...

Uma coleira mastigada em uma das extremidades,
faltando dois botões, uma desajeitada cama de cachorro
e uma vasilha de água que se encontra rachada na borda.

Deixo para você a metade de uma bola de borracha,
uma boneca rasgada que você vai encontrar
debaixo da geladeira, um ratinho de borracha sem apito
que está debaixo do fogão da cozinha
e uma porção de ossos enterrados no canteiro de rosas
e sob o assoalho da minha casinha.
Além disso, eu deixo para você a memória, que aliás são muitas.

Deixo para você a memória de dois enormes
e meigos olhos cor de mel, de um nariz molhado
e de choradeiras atrás da porta.

Deixo para você uma mancha no tapete da sala de estar
junto à janela, quando nas tardes de inverno
eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu,
e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol.

Deixo para você um tapete esfarrapado
em frente de sua cadeira preferida,
o qual nunca foi consertado com o tipo de linha certo....isso é verdade.
Eu o mastiguei todinho, quando ainda tinha
cinco meses de idade, lembra-se?

Também deixo para para você
as memórias da primeira surra que levei quando comi seu celular
e também todo o meu esquecimento ...

Deixo para você um esconderijo que fiz no jardim
debaixo dos arbustos perto da varanda da frente,
onde eu costumava me esconder do sol nos dias de verão.
Ele deve estar cheio de folhas agora
e por isso talvez você tenha dificuldades em encontrá-lo.
Sinto muito!

Deixo também só para você, o barulho que eu fazia
ao sair correndo sobre as folhas de abril,
quando vagabundeávamos pelo sítio.

Deixo ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs,
quando saíamos junto pela margem das lagoas do condomínio
e você me dava aqueles biscrocks coloridos.
Recordo-me das suas risadas, porque eu não consegui
alcançar aquele coelho impertinente.

Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia,
meu apoio quando as coisas não andavam bem,
meus latidos quando você levantava a voz aborrecido...
e minha frustração por você ter ralhado comigo
todas as vezes que eu colocava o nariz debaixo da cauda.

Eu nunca fui à igreja, nunca escutei um sermão,
e sem ter dito sequer uma palavra em minha vida,
deixo para você lições de paciência, de tolerância,
e amor e compreensão.
Sua vida tem sido mais rica porque eu vivi.



Quinta-feira, Outubro 07, 2004


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Terça-feira, Outubro 05, 2004